Maria Antónia Oliveira
Autora


Como se Escreve uma Biografia?


2025. O QUE SE PASSA, continuação Claro que há coisas básicas a transmitir: os métodos de pesquisa, trabalhar com arquivos, ler documentos e cartas, fazer entrevistas, lidar com a memória, construir uma cronologia, fazer um retrato, mostrar também o que já foi feito de relevante e o que está a acontecer agora.
Mas já a parte da arte se intromete: o pesquisador cansa-se, pede tréguas ao escritor que já o vinha espiando por cima do ombro, impaciente. A este último cabe a tarefa de dar vida a todo o material inerte que o outro espalhou sobre a sua mesa de trabalho: interpreta, selecciona, deita fora, pede às vezes mais sobre certo assunto ou acontecimento, escolhe um ângulo inesperado e uma voz narrativa. É bom que estes dois trabalhem em consonância. Mas acontece zangarem-se.

2024. RETOMEI AS AULAS de Escrita de Biografia, desta vez na Avenida de Berna onde, consta, se alojou outrora um quartel. Mas a casa-mãe da FSCH é muito a esplanada, protegida pelos Outubros suaves de Lisboa. É lá que me encontro com cada aluno meia hora antes da aula, planeando o trabalho que cada um vai fazer.
Claro que vêem que se meteram numa grande embrulhada. Não há êxito fácil em biografia. É um processo longo, que toma grande parte da vida. Mas há lá melhor maneira de nos esquecermos de nós próprios senão ir atrás de outrem? Deixo aqui as palavras de Virginia Woolf, tantas vezes citadas por biógrafos:
"Por um lado, temos a verdade; por outro, a personalidade. E se entendermos a verdade como algo de solidez granítica, e a personalidade como algo intangível como um arco-íris, e considerarmos que o objectivo da biografia é fundir estas duas coisas num todo contínuo e uniforme, teremos de admitir que o problema é espinhoso e que não é de admirar que os biógrafos não tenham, na sua maioria, conseguido resolvê-lo."  (A Nova Biografia, 1927)
Não há nada como ser optimista.

Na foto, Virginia Woolf e a irmã Vanessa a jogar cricket, St. Ives, 1894.









2024, AULA no CCB 

No dia 4 de Maio, dei uma aula no festival FeLiCidade, no CCB. Foi bom voltar a percorrer uma sala de aula de lés a lés.
Durante dois dias o Festival comemorou os 50 anos do 25 de Abril, festejando também a língua portuguesa e a liberdade. Teve muito êxito o poema Esquerdireita:


Biografia na Academia

NO ANO LECTIVO DE 2018-2019 iniciei as aulas de Escrita de Biografia na pós-graduação em Artes da Escrita, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
À excepção da Inglaterra, é raro na Europa existir uma disciplina de Biografia no seio da Academia. A minha satisfação foi grande por ver reconhecido pela Universidade um género a que me tinha dedicado, e por poder continuar a transmitir de forma mais continuada tudo o que tinha aprendido, inventado, experimentado.
Tal como outros géneros literários, o biográfico pede leituras, conhecimento do que já foi feito e do estado da arte. Não havendo propriamente um método único de biografar, há contudo certas técnicas que se podem aprender, um grau de consciencialização do que é e do que envolve o processo biográfico. E há, é claro, o rigor, a linha mestra e orientadora da tarefa do biógrafo.
A disciplina é semestral, de Setembro a Fevereiro. 

A Escadaria do Antigo Colégio Jesuíta em Campolide, onde funcionam as aulas.



EM 2011 COMECEI a transmitir a minha experiência e estudo sobre o género biográfico. Primeiro em forma de workshop no Teatro Maria Matos e de cursos de Verão na FCSH/ Universidade Nova de Lisboa.
Entre 2017 e 2019, fiz cursos de biografia em Bibliotecas (Évora, Porto, Cascais, Vila Franca de Xira, Amadora e Alcobaça), nas livrarias Livrarias Férin (Lisboa) e Déjà Lu (Cascais) e na EC.ON - Escola de Escritas (Lisboa).
Convidada pela Biblioteca Municipal de Cascais, concebi o curso Escrever o Eu: Autobiografia e Memórias.
Adaptado à Formação de Professores, levei o curso sobre biografia a Torres Vedras, à Escola Secundária Madeira Torres, em 2018.